Para ti (e para mim)
vamos desaparecer,
quatro dias ou muitos
não importa
bebemos um café e ensino-te
um sitio, para lá da serra
onde podemos ficar só os dois
e os pássaros
e o mar
uma casa térrea com jardim
três degraus apenas
até à porta,
a luz escura e sem desculpas
do verão, escura
o suficiente para ser
luz no grão de areia
único
tudo o que vemos e tudo o que parecemos
é apenas um sonho
um sonho dentro de um sonho
mão dentro de mão.
não desisto
e até ao fim desaparecemos
em fina areia de silencios
como duplos
gémeos por ter outro caminho
para voltar a fazer tudo igual
de novo.
premonição
escrever a luz quando tudo escurece rapidamente, quando se vive numa zona de cinzentos, contrastes e brilhos que mudam com os dias as horas, escrever a luz num vestido branco e pele clara, olhos cinzentos, escurecer ao sul onde somos mais negros. ao sul começar tudo ainda que não seja um inicio nunca, ou sempre o mesmo, ainda tudo por fazer quando se mantém a intenção. ir escurecendo. quando já se é cinzento, visão de contrastes, a negro e negro. branco no branco, com palmeiras ao fundo e o mar, gatos cinzentos. caminhos sem mapa, estradas de terra, junto ao mar, uma casa verde, térrea. vinho forte, vermelho vivo. e cinzento na luz de março e de novembro. à deriva. assim é.
(1924-2008)
Lembro-me de ir lanchar à praia das maçãs, também à boca do inferno como na canção, mas sempre gostei mais da estrada de sintra, de passar as bombas do ramalhão, as queijadas do preto, da descida até à portela, virar à direita, depois à esquerda onde agora é o olga cadaval, da descida longa até uma curva muito apertada à direita onde quase sempre me contavam histórias de despistes e piões, que felizmente não passaram de sustos, do serpentear da estrada de colares, da linha do comboio, desactivado, das casas e mercearias de colares, da adega imponente e do pouco que nesta altura já faltava até à praia. Lembro-me de alguns cafés, um ou dois restaurantes, e de, quase sempre que ali estava, percorrer a estrada que liga às azenhas do mar, de estar sentado no muro de uma adega cooperativa antes do miradouro, quando era muito pequeno, talvez das primeiras memórias que tenho. Lembro-me dos carros, um opel olympia rekord e um fiat 127.
Lembro-me de outras coisas misturadas com acontecimentos mais recentes que não têm importância. Lembro-me sempre de voltar aqui porque é aqui que tudo começa e lembro-me de nunca me esquecer de quem me ensinou o que mais gostava.
Lembro-me de outras coisas misturadas com acontecimentos mais recentes que não têm importância. Lembro-me sempre de voltar aqui porque é aqui que tudo começa e lembro-me de nunca me esquecer de quem me ensinou o que mais gostava.
Eu sempre soube que era outra, uma gémea.
Naquela altura vivia sozinha, uma casa sobre a falésia, encostada ao vento e às ondas, um mar forte pela porta, como nos livros.
Naquela altura vivia sozinha, uma casa sobre a falésia, encostada ao vento e às ondas, um mar forte pela porta, como nos livros.
ambulatorio
apenas te amo com a vulgaridade dos dias
com esse silêncio velho dos aloés à beira do mar
nos senteiros daninhos de erva e de pedra
e de terra
à vez seca
à vez húmida
e os seus breves pirilampos e orvalhos
apenas te amo
com a carne magoada de tantos sonhos anteriores
apenas te amo
e
vou escurecendo
: trago o chão todo que pisei agarrado a mim
os homens que amei e a ti
os filhos que pari e de ti
mãos brancas como manhãs jovens de
veludo e
o tempo todo
no tempo todo
agarrado a mim
- apenas te amo com a vulgaridade dos dias
(rente ao corpo
no intervalo pouco de uma vida)
...
inventa-me outro lugar, vá,
-um que seja-
perpendicular ao nome das coisas
para devolver-me esse espanto redondo que é o amor
um lugar, sim,
curvo
fechado
lento
lentíssimo
como o rasto molhado do silêncio
lambendo os caminhos
os aloés
os dias e na terra
à vez seca
à vez seca
o chão que trago agarrado comigo
(demasiado quotidiano, dizes.
é.)
por blimunda
Tereza,
recordo-te as palavras, no Público, das melhores que já li. E é só isso que importa, só isso.
memória
1.
separar a luz
nas mãos.
2.
é só isto
escolher palavras,
rente à terra
na casa breve
no tempo branco
da loucura
3.
Aqui agora é tudo ao contrário
absorvemos os ossos de quem se expõe
e assim andamos escondidos
ou se reduz a um mero filamento
a memória do que em nós deflagra.
Junho de 2006
separar a luz
nas mãos.
2.
é só isto
escolher palavras,
rente à terra
na casa breve
no tempo branco
da loucura
3.
Aqui agora é tudo ao contrário
absorvemos os ossos de quem se expõe
e assim andamos escondidos
ou se reduz a um mero filamento
a memória do que em nós deflagra.
Junho de 2006
Etiquetas:
escrita
Começar de novo
Branco no branco.
Mais de três anos depois de ter deixado de escrever aqui regularmente.
Numa altura em que se diz que os blogs vão morrer e que só ficam os que têm algo a dizer.
Tento provar o contrário, não tendo muito a dizer por agora, mantenho-me aqui.
A escrever a luz e depois ir escurecendo.
Mais de três anos depois de ter deixado de escrever aqui regularmente.
Numa altura em que se diz que os blogs vão morrer e que só ficam os que têm algo a dizer.
Tento provar o contrário, não tendo muito a dizer por agora, mantenho-me aqui.
A escrever a luz e depois ir escurecendo.
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